Veganismo estratégico: Por que veganos estão financiando a exploração de animais?

Imagine a cena: Você chega no supermercado para comprar shampoo que acabou em casa, entra no setor de beleza e higiene do local, encontra um produto com um selo na embalagem escrito “aprovado para veganos”, fica feliz, coloca no carrinho, paga no caixa e segue a vida. Tudo isso com comodidade e praticidade que pessoas veganas no país jamais imaginariam ter há alguns anos.

Nem precisou ler as letras miúdas dos componentes, ligar para o serviço de atendimento ao consumidor para tirar dúvidas, entrar nas listas disponíveis na internet de empresas que não testam em animais… Parece tudo perfeito. Mas não é! Você foi usada (e enganada) pela nova estratégia criada por grandes corporações (1) para atrair um público diferente. Tudo para gerar mais lucratividade, passando bem longe da preservação do planeta e da proteção aos animais.

AS INTERSECÇÕES DE MOVIMENTOS

Antes de tudo, é preciso entender que o veganismo não é uma dieta alimentar ou seguido por “good vibers” apenas. Entre o possível e praticável, se estimula um posicionamento ético que prega a não apreciação da exploração animal, seja por meio da alimentação, do vestuário, dos testes laboratoriais em seres sencientes (2), dos eventos “culturais” com animais (como rodeios, vaquejadas e touradas), entre outras ações de boicote.

Partindo do princípio da compreensão sobre o poder das nossas ações em barrar (ou não) incentivos a quem comete alguma exploração a grupos majoritariamente abusados na sociedade, é possível enxergar que as lutas dos movimentos sociais (3) estão conectadas umas às outras. Acontece que os elos que nos unem ainda são ignorados, e os sistemas de consumos se aproveitam disso.

O veganismo não pode dar voz ao racismo, por exemplo, assim como o feminismo deve incluir as fêmeas exploradas na indústria do leite também. Não existe uma “Constituição” sobre normas que pessoas autodeclaradas veganas devem seguir para se enquadrar como pertencentes ao movimento, mas se espera minimamente que os adeptos não queiram que animais continuem sendo explorados por laboratórios, não é mesmo?

O vegetarianismo cresce no mundo inteiro a níveis consideráveis. Assim como em outros movimentos apropriados pelos sistemas de consumo, como o feminismo (e as camisetas “Girl Power” produzidas na Tailândia com trabalho infantil – muitas delas são apenas meninas) ou LGBTQ+ (e o “pink money” (4) na indústria cultural – alô, Nego do Borel), o nicho vegano não seria poupado pelos olhos atentos e gananciosos do capital (5).

Intervenção em lanchonete em São Paulo. (Foto: Reprodução/@Ecoativismo)

A FALÁCIA DO VEGANISMO ESTRATÉGICO

Quem entra no movimento agora, vai dar de cara com uma maionese vegetariana estrita de uma poderosa empresa multinacional (6) que tem um longo histórico de testes em animais, crimes ambientais, exploração de trabalhadores, concorrência desleal, entre outros problemas. O que já era ruim, ficou ainda pior quando os produtos da corporação receberam o tal “selo vegano” de organizações que – teoricamente – lutam pelos direitos dos animais.

A maionese, produzida pela multinacional que assume que financia testes em animais, recebeu um “selo vegano” da Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB). Pasmem! Se uma empresa afirma que testa seus produtos em animais ou que seus fornecedores realizam a prática para quaisquer fins, seja em território nacional ou no exterior, a empresa não está de acordo com o manifesto da Sociedade Vegana. Os consumidores que optam por comprar seus produtos estão financiando a continuidade dos testes em seres sensíveis à dor, mesmo com alternativas laboratoriais já comprovadas e praticadas.

Sabendo que seria polêmico demais lançar um “selo vegano” em um produto de uma empresa como a Unilever, a SVB, seguindo modelos estrangeiros de outras ONGs – teoricamente – animalistas, como a Mercy For Animals, Vegan.org e PeTA, decidiu investir em uma ideia mercantilista. Se apropriaram do “veganismo estratégico” (7), já utilizado fortemente nos mercados europeu e norte-americano, para justificar o acolhimento de empresas como a Unilever, fabricante da tal maionese mencionada neste artigo, no meio vegano.

A teoria do veganismo estratégico acredita que o movimento só vai crescer se existir incentivos a todo e qualquer produto vegetariano estrito (8), mesmo que a empresa produtora continue explorando animais em algum processo. Com falta de transparência nos rótulos, o “selo vegano” ignora que empresas como a Unilever continuem torturando e matando animais com dinheiro dos próprios veganos. O importante é ter mais produtos vegetarianos estritos no mercado. Custe o que custar. Mesmo que se pague com vidas inocentes ou valores nada acessíveis para a realidade brasileira, já que um pote da maionese vegetariana estrita da Unilever custa, em média, 11 reais.

Coelho usado na indústria laboratorial de testes em animais. (Foto: Reprodução)

QUEM COMPRA – E QUEM VENDE – ESSA IDEIA

Para encorpar o projeto, o veganismo estratégico precisa de influenciadores do meio que estimulem seus públicos a comprarem tais produtos. Não são apenas blogueiras, modelos fitness e nutricionistas vegetarianos (sim, até nutrólogos estão recomendando a tal maionese como “alternativa mais saudável”), mas qualquer pessoa pode influenciar alguém a consumir um produto que está em todas as prateleiras dos supermercados.

Você já viu algum supermercado não vender uma maionese Hellman’s? A Unilever já foi multada por concorrência desleal no país, então imagine o poder de influência da empresa no mercado brasileiro. Existe um produto concorrente similar que atua há anos no mercado brasileiro, e mesmo que custe metade do preço que a Hellman’s vegetariana estrita, tem perdido espaço nos supermercados. Afinal, chegou alguém que pode pagar mais caro por mais prateleiras, além de ter uma logística poderosa no interior e nas capitais. A concorrência é esmagada.

Em abril deste ano, um influente YouTuber autodeclarado vegano, que defende o veganismo estratégico e o consumo de produtos de empresas como a Unilever, fez uma publicação no seu Instagram literalmente se lambuzando com a maionese vegetariana estrita da Unilever. Em nenhum momento deixou claro que se tratava de uma publicação paga, mesmo marcando o perfil da empresa e usando hashtags da mesma.

O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) está de olho nesse tipo de publicidade velada, porém a ideia das grandes empresas é justamente naturalizar a aceitação de um produto em um nicho específico. O tal YouTuber vegano possui mais de 741 mil seguidores somados em suas redes sociais, usando um personagem criado para influenciar o seu público com sutis propagandas em meio às piadas machistas e sem graça.

GAIOLAS VAZIAS E BOLSO CHEIO

Em 2016, a ONG – teoricamente – animalista Mercy For Animals (MFA) recebeu 1 milhão de dólares da Open Philanthropy Project (OPP) para acelerar o projeto chamado “Cage-Free”, que em português significa algo como sem gaiolas. A ONG justifica a doação como um incentivo para acabar com a prática de confinamento de galinhas poedeiras em gaiolas de baterias. Para um grupo que – teoricamente – luta pelos direitos dos animais, não seria ingênuo demais acreditar que alguém deixaria 1 milhão de dólares sem qualquer interesse por trás?

A estratégia da MFA é puramente bem-estarista, ou seja, que aceita negociar as vidas dos animais com instituições públicas e privadas para trazer apenas o pseudo bem-estar momentâneo das vítimas. A exploração animal não cessa e os bichos continuam sendo objetificados e usados como moedas pela indústria pecuária. Aceitando a continuidade das práticas abusivas, a MFA se junta ao mesmo coro que defende o abate humanitário, onde a “consciência humana fica mais leve” quando se cria uma falsa ilusão de que as galinhas são mais felizes agora. E não, elas não são. Nem um pouco. Os animais continuam presos em galpões, amontoados em meio aos dejetos e corpos dos que foram pisoteados ou morreram vítimas da proliferação de microorganismos presentes na decomposição dos cadáveres.

Com o apoio de ativistas veganos na continuidade da exploração de galinhas, o mercado produtor de ovos dos EUA registrou aumentos consideráveis na procura dos produtos com o selo “cage-free” a partir de 2016. Será que ninguém da MFA se questionou que não seria interessante para a indústria acabar com a exploração de galinhas, já que o público consumidor está mais feliz do que nunca com a criação de uma imagem enganosa de galinhas livres e felizes pelo campo? Os animais pagam o preço desse monumental erro e tem muita gente lucrando com isso.

Galinhas exploradas pelo sistema “Cage-free” em um galpão superlotado. (Foto: Reprodução/Portal Veganismo)

ARGUMENTOS DESCONSTRUÍDOS

O veganismo estratégico também usa da falsa simetria (9) para questionar temas dentro do movimento, como: “Se veganos compram em supermercados que também vendem produtos de origem animal, por que não boicotam esses estabelecimentos?”. O argumento é refutado quando comparamos o poder de indução ao consumo que uma multinacional possui com as condições que um trabalhador tem de escolher um estabelecimento em um sistema que não é libertário, e continua baseado na exploração de animais humanos e não-humanos.

Não temos controle sobre o sistema em que vivemos. Precisamos trabalhar e consumir dentro das nossas condições sociais impostas. As engrenagens do capital precisam das desigualdades para se manter funcionando, para que as grandes empresas continuem lucrando. A Unilever certamente pode vender a maionese vegetariana estrita onde quiser, pode pagar (e bem) para adquirir selos de ONGs – teoricamente – veganas e consegue influenciar com lobbys (11) a implementação de projetos que beneficiam seus negócios. Mas e você, mero consumidor, tem poder para mudar tudo isso sozinho? Pode escolher comprar apenas em supermercados veganos, que nem existem no país?

Quando veganos induzidos pela falácia do veganismo estratégico usam tais argumentos, colocando a culpa de um sistema desigual e ganancioso nas costas do cidadão comum, aquela interseccionalidade de lutas sociais fica mais distante ainda. Lembre-se: O veganismo é dentro do possível e do praticável. Você precisa mesmo consumir uma maionese ultraprocessada (11) de uma multinacional que tem condições de não explorar, mas continua a fomentar desigualdades e injustiças?

Que tipo de veganismo vai crescer quando se torna aliado a grandes corporações e projetos desonestos de instituições que visam lucrar em cima de animais humanos e não-humanos? O crescimento econômico certamente já está acontecendo, afinal, esse é o grande objetivo do veganismo estratégico vendido para as multinacionais desde o início. Os princípios éticos que regem o movimento vão ficando em segundo plano. Para que comprar a maionese vegetal de uma cozinheira local se tem um pote de Hellman’s em cada supermercado? Ceder ao poder do capital é deixar de lado a luta abolicionista (12) que fundamentalmente ergueu o nosso movimento. Não é sobre ter mais opções, mas colocar novamente o paladar à frente de vidas, agora esquecidas por quem um dia disse que seria a voz dos silenciados.

PEQUENO GLOSSÁRIO DE TERMOS USADOS NESTE ARTIGO:

(1) CORPORAÇÕES: São grandes empresas que visam a lucratividade antes do aspecto do desenvolvimento humano e de práticas sustentáveis. Geralmente são detentoras de marcas que atuam nos mercados consumidores de diferentes países, exercendo influência regional e global.

(2) TESTES LABORATORIAIS EM ANIMAIS: Experimentos feitos em animais vivos em laboratórios especializados, com o objetivo de testar a eficácia de um determinado produto ou componente para o consumo entre humanos. Mesmo comuns, os testes são ineficientes para prever resultados em organismos humanos, segundo diversos pesquisadores. Hoje, são realizados diferentes experimentos em que os animais são forçados a participarem, como os testes Draize, onde cachorros e coelhos recebem substâncias tóxicas nos olhos e na derme. Alguns ficam semanas com clipes presos aos olhos para impedir o fechamento das pálpebras.

(3) MOVIMENTOS SOCIAIS: Grupos de pessoas e setores da sociedade que promovem debates e ações organizadas coletivamente em defesa de objetivos em comum.

(4) PINK MONEY: Em português, a expressão significa dinheiro rosa, e está relacionada ao poder de consumo do público LGBTQ+. Empresas que enxergam oportunidades mercadológicas nas bandeiras levantas pelo movimento e querem gerar lucro.

(5) CAPITAL: Em economia, capital se refere a qualquer bem ou produto econômico que pode ser utilizado na produção de outros bens ou serviços.

(6) MULTINACIONAL: É uma empresa que possui matriz (sede) em um determinado país de origem, mas atua em mercados de outros países, com objetivo principal de aumentar a lucratividade e influência entre novos consumidores.

(7) VEGANISMO ESTRATÉTIGO: Ideia que sustenta que pessoas veganas devem consumir produtos de empresas que financiam testes em animais para promover o crescimento do veganismo em maior escala.

(8) PRODUTO VEGETARIANO ESTRITO: Apesar de não conter ingredientes de origem animal em sua composição, não pode ser dito como vegano, já que no processo de produção pode existir a exploração de animais em testes laboratoriais ou financiamento de eventos culturais que exploram animais, como rodeios, vaquejadas, touradas, entre outros.

(9) FALSA SIMETRIA: Termo usado quando se compara diferentes grupos sociais sem que se considere as relações de poder de cada um. Por exemplo, comparar a influência financeira de uma multinacional nas redes de supermercado com o poder de consumo individual de um trabalhador.

(10) LOBBY: Termo usado para designar estratégias de pessoas e empresas que buscam promover uma agenda para beneficiar seus próprios interesses no campo político, influenciado decisões dos poderes executivos e legislativos.

(10) ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS: São produtos alimentícios que imitam comida (seja pelo gosto ou pelo cheiro) e são produzidos por diversas etapas e técnicas de processamento nas indústrias. Em suas formulações, geralmente possuem ingredientes adicionados ao produto, como estabilizantes, espessantes, corantes, conservantes, realçadores de sabor, emulsificantes, entre outros tipos. Os produtos ultraprocessados estão associados a alguns tipos de cânceres.

(12) ABOLICIONISMO: No veganismo, o abolicionismo luta pelo fim de toda a exploração de animais e rejeita as negociações “estratégicas” onde vidas sencientes continuam sendo tratadas com objetificação (vistas como objetos, sem valor ético). Diferente do bem-estarismo animalista, que usa o conforto do animal para compensar qualquer culpa diante da continuidade das explorações de animais feitas por humanos, quais deseja regulamentar.

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Cozinheira vegana quer ajudar vítimas na costa africana com feijoada solidária

No centro de São Paulo, dentro de uma galeria comercial na Rua da Consolação, uma senhora com avental e rede protetora nos cabelos está de costas para o balcão. Ela coloca um prato de comida para esquentar e se locomove para preparar um suco no ambiente não muito grande de onde fica a cozinha da TOYA Vegan. O espaço gastronômico vegano aberto pela Dona Selma em 2018 é conhecido pela boa comida e pelos preços baixos.

A trajetória foi longa até conseguir alugar o estabelecimento em um ponto bem localizado, perto de duas estações do metrô e de locais turísticos da cidade, como o Theatro Municipal e a Biblioteca Mário de Andrade. Muitas vezes, a cozinheira precisou dormir em um colchão guardado na loja para conseguir ter tempo de preparar as encomendas e os pratos do dia no restaurante, já que mora distante do comércio e levaria muito tempo no transporte.

A resistência feminina

Preocupada em poder oferecer pratos ao menor preço que consegue, sem diminuir a qualidade, a cozinheira se equilibra como pode para pagar o aluguel, os funcionários e todas as contas do estabelecimento. Nem sempre dá. Assim como em muitas famílias brasileiras, tem dias que ela tira de um lugar para colocar em outro. Mas ela detesta imaginar em mexer no valor do PF (prato feito) novamente, que hoje custa entre R$ 12,00 e R$ 15,00. Valor às vezes mais barato que muitos pratos executivos não-veganos vendidos na região.

Selma é uma mulher negra e da periferia, sua luta não é a mesma que a de outras empreendedoras que seguem passos parecidos, mas que não precisaram passar por obstáculos sociopolíticos de uma sociedade com preconceito enraizado e severas desigualdades. Ela sabe que outras mulheres negras ainda passam por isso todos os dias, que precisam enfrentar o racismo estrutural.

Tragédia na costa africana

Em março deste ano, ela soube da catástrofe que atingiu a costa sudoete africana, quando o ciclone Idai devastou Moçambique, Zimbabué e Malaui com ventos de cerca de 200 km/h. Mais de 800 mortos e 3 milhões de pessoas atingidas pela tragédia. As terríveis inundações fizeram a cólera se proliferar.

Sensível à dor africana, Selma se juntou ao colega da hamburgueria vegana Salad Days, e juntos decidiram fazer uma ação para arrecadar verbas para os afetados pela tragédia natural. No próximo sábado (6), ela vai cozinhar bastante feijoada vegana para os seus clientes e doará o valor arrecadado para os Médicos Sem Fronteiras ajudarem os atingidos na África.

A parceria entre TOYA Vegan e Salad Days. (Foto: Reprodução/Instagram)

Veganismo é ato político

A mesma Selma que dorme no chão da loja e coloca pratos a preço popular, mesmo estando quase no vermelho, também arranja tempo para estender as mãos para quem tanto precisa hoje. Ela faz mais pelo veganismo que muitos influenciadores digitais que esbanjam propagandas de produtos de alto valor no Instagram. O veganismo da cozinheira é aquele que não fecha os olhos para outras injustiças e desigualdades.

Se você for de São Paulo, precisa dar um jeito de ir até a lanchonete dela no próximo sábado. Ver as panelas da TOYA vazias, um largo sorriso no rosto da Selminha e a solidariedade se espalhar pela causa animal”Quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela, porque tudo é desestabilizado a partir da base da pirâmide social onde se encontram as mulheres negras” Angela Davis

FEIJOADA DA DONA SELMA

Quando: Sábado, 06 de abril, das 12h às 17h.

Local: TOYA Vegan, em São Paulo – Rua da Consolação, 331 – Loja 6, próximo à Biblioteca Mário de Andrade. Entre as estações Higienópolis-Mackenzie (Linha Amarela) e Anhangabaú (Linha Vermelha).

Valor: R$ 25,00. Aceita débito e crédito.

Sacrifício religioso de animais: O veganismo não pode dar voz ao racismo institucional

Na última quinta-feira (28), o Supremo Tribunal Federal (STF) compreendeu a legalidade constitucional do sacrifício de animais em cultos religiosos. O tema é mais complexo do que simplesmente defender os direitos dos animais: é preciso ter noção do país em que vivemos antes de sair vociferando absurdos que abrem margem para o racismo e a intolerância religiosa que mata e persegue as raízes afro-brasileiras.

O Supremo julgou com base na diversidade de religiões, com enfoque sobre os cultos de matriz africana, que constantemente são vítimas de graves violações. O tribunal não julgou a ação refletindo sobre o valor da vida de cada animal. Para isso, seria necessário antes uma conversa bem longa com a agropecuária e debater profundamente sobre as tradições aceitas socialmente do Eurocentrismo religioso. Será que o animal só sente dor quando a mão que segura a faca vem do Candomblé ou do Xangô pernambucano?

Veganos: Nós entendemos que todas as vidas importam. É o beabá. Mas ninguém no tribunal compreende dessa forma porque ainda estão sob a ótica jurídica atual. Existem limitações quanto aos direitos dos animais, não temos uma bancada que defende a causa no Congresso Nacional. O que existe são bancadas conservadoras, como as da bala, do boi e da bíblia, essa última responsável por querer criminalizar religiões afro-brasileiras. O que estava em debate no STF não era o especismo com base no direito à vida do animal. O julgamento foi uma resposta à intolerância que persegue e mata as religiões de ancestralidade negra.

Uma pessoa vegana, consciente da intersecção política-social que o movimento engloba, não defende a morte de animais de forma alguma e não deve dar coro ao racismo expressado em uma ação como a que foi julgada pelo Supremo essa semana. A proposta, se fosse aprovada, permitiria a coerção, multa e prisão de praticantes de cultos religiosos afro-brasileiros. A ideia nunca foi defender os animais, mas usar a causa para embasar a perseguição contra o povo e a cultura negra no país.

A perseguição histórica da cultura negra no país usa movimentos sociais para criminalizar e aumentar a intolerância religiosa e cultural. (Foto: Reprodução/Diário Online do Pará)

No ativismo dentro de casa, você abordaria a sua mãe com tom coercitivo enquanto ela come um pedaço de carne? Para os mais próximos, é “preciso respeitar o tempo de cada um” e “entender que ela nunca ouviu falar a respeito do veganismo”. Para os praticantes, majoritariamente negros, das religiões afro-brasileiras, a polícia vai levar o ativismo com cassetete e arma em punhos. Dá para entender como é problemático deixar que o Estado, legitimado por leis racistas, tome voz das causas que o movimento vegano luta? Historicamente, sabemos que as leis são facilmente corrompidas com más intenções e interpretações.

Não-veganos: A sua crítica é direcionada a um só povo ou vale para todos? Não vejo foto de perfil ou cartaz levantado em protestos contra o sacrifício de aves para celebrar o aniversário de Jesus Cristo ou o abate kosher-judaico de vidas que também importam. E os peixes que morrem asfixiados na quaresma cristã? Por trás dessa cortina de indignação tem muito racismo institucional, ódio ao povo preto e inconformismo com culturas que são constantemente perseguidas.

E não é uma questão de opinião, simplesmente. Falar que o Candomblé mata animais por sadismo é não olhar para o altar da sua sala ou para o prato de comida na mesa da cozinha. Usar da ignorância incentivada pela intolerância que confunde propositalmente rituais de raízes africanas com a chamada “magia negra” (onde seu nome já carrega o teor racista perpetuado pela nossa sociedade) é um afronte à memória dos povos históricos e uma atitude leviana de quem não possui embasamento para debater o assunto. E precisamos debater o assunto de maneira séria.

Para entender melhor tudo isso, e com mais propriedade de fala, o Movimento Afro Vegano elaborou um texto explicativo sobre a RE 494601, e está disponível no Facebook neste link. A professora Paula Aparecida também se posicionou com um texto onde aborda o assunto com importantes fragmentos sociais. Disponível no Facebook neste link.

Um vegano na Casa Branca? Senador Cory Booker disputará a Presidência dos EUA

O presidente dos EUA, Donald Trump, tem enfrentado constantes abandonos de aliados do Partido Republicano e até mesmo de seus eleitores, que têm um perfil mais conservador e crítico a projetos socias para minorias, como mulheres, negros, imigrantes e LGBTQ+.

As eleições de 2020 já começaram nos bastidores políticos do país. Após escândalos de corrupção, acusações de obstrução à justiça e ligação com os russos, o partido do presidente vê grandes riscos em colocar o nome de Trump à reeleição, caso ele saia ileso de um processo de impeachment que ganha cada dia mais força no Congresso.

Pelo Partido Democrata, qual concorreu Hillary Clinton na última eleição presidencial, o Senador de Nova Jersey, Cory Brooker, quer participar das prévias democratas e ser o nome escolhido a disputar a cadeira da Sala Oval com o candidato republicano.

Booker, 49 anos, é assumidamente vegano e faz questão de ajudar seus seguidores nas redes sociais a encontrar restaurantes estritamente vegetarianos no país. Foi vereador e prefeito de Newark antes de se eleger como primeiro senador negro do estado de Nova Jersey.

No início da sua carreira política, o senador ficou conhecido pelo bom humor no Twitter e hoje atua em prol das defesas sociais da população mais pobre, além de incentivar o veganismo para milhões de seguidores.

Ibope divulga que 14% dos brasileiros são vegetarianos

Cada dia mais brasileiros compreendem a importância de deixar o consumo de carnes e outros derivados animais. Com opções variadas nas prateleiras e atingindo públicos fora das capitais, o mercado de alimentos vegetarianos cresceu significativamente nos últimos anos e isso foi um dos reflexos para um número maior de pessoas conhecer o vegetarianismo e a sua eficácia nutricional em uma sociedade que prioriza alimentos que demandam menos tempo de preparo.

Estudo feito pelo Ibope Inteligência mostrou que 14% dos brasileiros, cerca de 22 milhões de pessoas, concordam com a afirmação “sou vegetariano”.

Em 2012, 8% dos brasileiros se declaravam vegetarianos, mas daquele ano para cá muitas coisas mudaram, como o aumento da acessibilidade para o público vegetariano nos mercados, estudos que comprovaram a ligação de alimentos de origem animal com doenças graves como o câncer, inéditas propagandas de organizações de defesa dos animais e até a conscientização maior pelos direitos animais via ativismo na internet e nas ruas.

É importante entender que ainda existem dúvidas sobre as nomenclaturas e diferenciações para quem se considera vegetariano e vegano. As pessoas que não consomem carnes (peixe também é carne), mas continuam consumindo outros alimentos de origem animal, como leite, ovo e mel, são chamadas de ovo-lacto-vegetarianas. As pessoas veganas não consomem nenhum tipo de alimento de origem animal e portanto são vegetarianas estritas. Veganos não se baseiam apenas na alimentação, existe uma série de conceitos éticos que circundam o veganismo, como o não uso de peças de couro ou camurça e o boicote a produtos que testam em animais, por exemplo.

Muitas pessoas deixam o consumo de carnes e/ou derivados animais por questões de saúde, ética ou modismo alimentar. Segundo a mesma pesquisa, 49% dos brasileiros acham que produtos veganos podem ter a mesma qualidade dos que contêm ingredientes de origem animal e 60% comprariam produtos do tipo se custassem o mesmo que os demais produtos não-veganos.