Luisa Mell em Brumadinho: “Tantos animais sofrendo e estou impedida de ajudar”

São longos os dias para os voluntários independentes e de Organizações Não Governamentais que se dispuseram a tentar salvar vidas de animais em meio à lama contaminada dos rejeitos da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Por lá, ninguém fala em tragédia ou acidente como sumário do que aconteceu. O coro é um só: foi crime. Crime contra a humanidade e o meio ambiente.

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Estão em Feijão profissionais experientes, que inclusive atuaram em Mariana, quando a barragem da Samarco (empresa controlada pela Vale) se rompeu em 2015, matando não apenas 18 pessoas, mas um número incalculado de animais e o Rio Doce também. É taxado como o maior desastre ambiental do país. Mas repete-se o coro: não foi acidente, foi crime. E Brumadinho já mostra que, ao menos em número de vidas humanas, deve facilmente ganhar o título nada honroso que a Vale deixou para a cidade mineira.

Os voluntários em Brumadinho tentam entrar na chamada “área quente” para iniciar as operações de resgate dos animais, é lá que o mar de lama com rejeitos devastou a região, também é o local em que os bombeiros buscam por vítimas humanas. Mas a prioridade, segundo as autoridades, é encontrar os corpos das vítimas, já que as chances de resgatar sobreviventes é remota. Dividindo a tragédia humanitária, estão as outras vítimas do ecocídio cometido em Feijão, onde muitos animais vivos, porém debilitados, enfrentaram quatro dias de exaustão em resistência, mas não podem ser resgatados pelo impedimento de jurisprudência e bloqueios de acesso deixados pela Vale e autoridades locais.

Voluntários tentam resgatar vaca atolada nos rejeitos em Brumadinho. Sem sucesso, o animal foi eutanasiado no local. (Foto: Wilton Júnior/Estadão Conteúdo)

A ativista e protetora dos animais, Luisa Mell, chegou a Brumadinho na manhã de segunda-feira (28). Os profissionais do seu instituto já estavam lá desde o fim de semana tentando resgatar um touro que se encontra atolado em uma das extremidades percorridas pela lama. Para surpresa de todos, eles encontraram tapumes que impediam o acesso e visão dos voluntários para a região devastada, onde estão vítimas humanas e animais vivos que pedem por socorro. Eles denunciam que a própria Vale ergueu os tapumes para impedir os trabalhos de voluntários.

Luisa agendou um sobrevoo com helicóptero mais cedo para tentar mapear a área, mas o mesmo foi cancelado por motivos não esclarecidos, segundo a ativista. As tentativas de resgatar com vida vacas, bois, touros, cachorros, macacos e outros animais presos aos rejeitos endurecidos pelo Sol após mais de 90 horas do rompimento da barragem vão ficando cada vez mais escassas conforme as horas vão passando. Uma autoridade joga a culpa para a outra. Literalmente, com as portas das estradas fechadas, Luisa e os demais voluntários entram em desespero por não ser possível realizar o que pretendiam desde o primeiro minuto em que chegaram em Feijão.

“Estou arrasada. Me frustra saber que não consigo fazer o meu trabalho. Tantos animais sofrendo e eu aqui do lado deles impedida de ajudar. Mas amanhã vou conseguir”, disse Luisa em entrevista para o Boletim Vegano.

Como se não bastasse a angústia de não poder atuar em campo e com o vai e vem de autorizações e negações recebidas pelo Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e da própria Vale, a equipe de voluntários precisou comprar tapumes para poder chegar até um dos animais atolados, já que a lama impossibilita que eles andem. Luisa questiona em seu Instagram o paradeiro dos animais já resgatados pelas equipes. Até o momento, é informado apenas que 12 cachorros foram resgatados no domingo, os que estão em estado mais grave foram levados para clínicas veterinárias em Belo Horizonte, os demais estão em uma clínica improvisada instalada em uma casa ali mesmo, em Córrego do Feijão.

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Oficialmente, o Conselho Regional de Medicina Veterinária de Minas Gerais não informa mais detalhes sobre o paradeiro das vítimas e como está ocorrendo o trabalho em conjunto com a Vale para resgatar os animais que ainda estão presos nos rejeitos. São duas equipes em campo, uma de profissionais voluntários e outra montada pela Vale, após liminar deferida pelo Ministério Público do estado que obrigou a empresa a montar planos de resgate dos animais que foram vítimas do rompimento da barragem.

“Eu fico olhando toda essa devastação e fico me perguntando quando as pessoas vão entender que nada é mais importante que o meio ambiente. O meio ambiente é o ar que a gente respira, é a água que a gente bebe, é a comida que a gente come. O que pode ser mais importante que isso?”, questiona a ativista.

Em dezembro de 2018, o Superintendente do Ibama em Minas Gerais, Julio Cesar Dutra Grillo, fez uma alerta para as autoridades ao afirmar que mais de 300 barragens apresentavam riscos e foram enquadradas como inseguras no estado. Voto vencido. A reunião no final do ano passado terminou com a aprovação do licenciamento de forma acelerada para as operações da Mina Córrego do Feijão, onde, até agora, 65 pessoas morreram, 279 estão desaparecidas e incontáveis animais que esperam a compaixão das autoridades em permitir o trabalho de profissionais como Luisa Mell, que não apenas fazem algo de fato pelas vítimas invisíveis em Brumadinho, mas que dividem também parte da dor dos inocentes.

Vítima presa aos rejeitos aguarda resgate em Brumadinho. (Foto: Reprodução/AFP)

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A morte do Rio Paraopeba: “Já tem muitos peixes chegando à margem pedindo socorro”

Os povos indígenas que habitam a região do rio Paraopeba, em São Joaquim de Bicas, atingido pelo mar de rejeitos da Vale, estão preocupados com a saúde das águas e lutam por suas terras ameaçadas.

O cacique da reserva indígena Naô Xohâ, Pataxó Hã-Hã-Hãe, denuncia que os animais do rio já estão morrendo pela contaminação de materiais rejeitados da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, após o rompimento da barragem na sexta-feira (25).

Habitantes da aldeia indígena Naô Xohâ observam o Rio Paraopeba, atingido pelos rejeitos da Vale. (Foto: Lucas Hallel)

A aldeia está localizada a 26 Km da barragem que se rompeu e as informações inciais falavam sobre a remoção dos habitantes da aldeia, mas eles insistem em ficar para proteger os animais, o rio e suas terras devastadas.

“A água ontem estava clara, mas hoje está vermelha escura. Já tem um bocado de peixe morto, boiando, com a boca pra fora pedindo socorro”, disse angustiado Pataxó Hã-Hã-Hãe.

Os povos da região são historicamente ameaçados pela indústria da mineração e pelas fazendas de gado. Movimentos sociais, como o MST, que possui um acampamento na região, somam esforços em proteção à aldeia Naô Xahâ.

O ministro do Desenvolvimento Regional, Gustavo Canuto, disse que amostras foram colhidas em 47 pontos do Rio Paraopeba para atestar a saúde das águas. O resultado deve ser divulgado na próxima quarta-feira (30).

*Fotos cedidas gentilmente por Lucas Hallel, que esteve em São Joaquim de Bicas ao lado dos povos de Naô Xohâ.