Sacrifício religioso de animais: O veganismo não pode dar voz ao racismo institucional

Na última quinta-feira (28), o Supremo Tribunal Federal (STF) compreendeu a legalidade constitucional do sacrifício de animais em cultos religiosos. O tema é mais complexo do que simplesmente defender os direitos dos animais: é preciso ter noção do país em que vivemos antes de sair vociferando absurdos que abrem margem para o racismo e a intolerância religiosa que mata e persegue as raízes afro-brasileiras.

O Supremo julgou com base na diversidade de religiões, com enfoque sobre os cultos de matriz africana, que constantemente são vítimas de graves violações. O tribunal não julgou a ação refletindo sobre o valor da vida de cada animal. Para isso, seria necessário antes uma conversa bem longa com a agropecuária e debater profundamente sobre as tradições aceitas socialmente do Eurocentrismo religioso. Será que o animal só sente dor quando a mão que segura a faca vem do Candomblé ou do Xangô pernambucano?

Veganos: Nós entendemos que todas as vidas importam. É o beabá. Mas ninguém no tribunal compreende dessa forma porque ainda estão sob a ótica jurídica atual. Existem limitações quanto aos direitos dos animais, não temos uma bancada que defende a causa no Congresso Nacional. O que existe são bancadas conservadoras, como as da bala, do boi e da bíblia, essa última responsável por querer criminalizar religiões afro-brasileiras. O que estava em debate no STF não era o especismo com base no direito à vida do animal. O julgamento foi uma resposta à intolerância que persegue e mata as religiões de ancestralidade negra.

Uma pessoa vegana, consciente da intersecção política-social que o movimento engloba, não defende a morte de animais de forma alguma e não deve dar coro ao racismo expressado em uma ação como a que foi julgada pelo Supremo essa semana. A proposta, se fosse aprovada, permitiria a coerção, multa e prisão de praticantes de cultos religiosos afro-brasileiros. A ideia nunca foi defender os animais, mas usar a causa para embasar a perseguição contra o povo e a cultura negra no país.

A perseguição histórica da cultura negra no país usa movimentos sociais para criminalizar e aumentar a intolerância religiosa e cultural. (Foto: Reprodução/Diário Online do Pará)

No ativismo dentro de casa, você abordaria a sua mãe com tom coercitivo enquanto ela come um pedaço de carne? Para os mais próximos, é “preciso respeitar o tempo de cada um” e “entender que ela nunca ouviu falar a respeito do veganismo”. Para os praticantes, majoritariamente negros, das religiões afro-brasileiras, a polícia vai levar o ativismo com cassetete e arma em punhos. Dá para entender como é problemático deixar que o Estado, legitimado por leis racistas, tome voz das causas que o movimento vegano luta? Historicamente, sabemos que as leis são facilmente corrompidas com más intenções e interpretações.

Não-veganos: A sua crítica é direcionada a um só povo ou vale para todos? Não vejo foto de perfil ou cartaz levantado em protestos contra o sacrifício de aves para celebrar o aniversário de Jesus Cristo ou o abate kosher-judaico de vidas que também importam. E os peixes que morrem asfixiados na quaresma cristã? Por trás dessa cortina de indignação tem muito racismo institucional, ódio ao povo preto e inconformismo com culturas que são constantemente perseguidas.

E não é uma questão de opinião, simplesmente. Falar que o Candomblé mata animais por sadismo é não olhar para o altar da sua sala ou para o prato de comida na mesa da cozinha. Usar da ignorância incentivada pela intolerância que confunde propositalmente rituais de raízes africanas com a chamada “magia negra” (onde seu nome já carrega o teor racista perpetuado pela nossa sociedade) é um afronte à memória dos povos históricos e uma atitude leviana de quem não possui embasamento para debater o assunto. E precisamos debater o assunto de maneira séria.

Para entender melhor tudo isso, e com mais propriedade de fala, o Movimento Afro Vegano elaborou um texto explicativo sobre a RE 494601, e está disponível no Facebook neste link. A professora Paula Aparecida também se posicionou com um texto onde aborda o assunto com importantes fragmentos sociais. Disponível no Facebook neste link.

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