Como a desinformação e o ódio aos pobres se tornaram peças fundamentais do capitalismo | Ecoativismo

No Twitter, uma usuária questionou a entrega de marmitas veganas para moradores em situação de rua. Em resposta, teve gente reclamando que o movimento vegano está “impondo” uma dieta à base de plantas para pessoas vulneráveis. Outros questionavam se a alimentação entregue é nutricionalmente completa.

Um prato vegetariano, sem ingredientes de origem animal, tem alimentos que toda a população consome diariamente. Arroz, feijão, abóbora e salada não deveriam causar tanto espanto assim, acontece que não aprendemos a valorizar e identificar os alimentos presentes em nossas terras, plantados pelo nosso povo.

A desinformação gera preconceito, falei isso no meu artigo sobre o aumento do preço da carne. Muita gente desconhece o valor nutricional da comida vegetariana, porque estamos em um sistema que nos impede de chegar às informações que carregam um potencial de questionar o status quo – o estado das coisas.

Dizer que algo é “vegano” causa repulsa para a hegemonia cultural. Só é interessante para a classe dominante se gerar algum benefício para ela. A possibilidade de sermos saudáveis sem machucar seres sencientes justifica mudar o modelo de vida que levamos. Assim, o veganismo passa a ser visto além da dieta, compreendendo-se como um conjunto de resistências às opressões causadas pelo sistema.

Entender que o agronegócio é responsável pela concentração de terras pode soar perigoso demais para os interesses de uma indústria gananciosa e lucrativa. Dados do INPE e do Ministério da Agricultura, em 2019, mostram que 95% de toda a área considerada produtiva no país pertence a apenas 1% dos produtores rurais.

As insuficientes políticas públicas somadas ao baixo nível de distribuição de alimentos e terras geram áreas de fome endêmicas no Brasil, termo usado pelo médico e ativista contra a fome Josué de Castro. Em uma de suas pesquisas, ele concluiu que “a mortalidade da população brasileira está relacionada ao estado de pobreza que condiciona a fome coletiva”. E a pobreza é fruto das práticas desiguais do capitalismo.

O ódio ao pobre produz a mistanásia, a morte precoce e evitável, que é assistida por um Estado inoperante dentro de uma estrutura que cria condições para isso. Assim também acontece pelo nutricídio, que leva especialmente pessoas negras, pobres e imigrantes a consumirem produtos nutricionalmente fracos e potencialmente cancerígenos. É evidente que o racismo e a xenofobia se agarram ao capital como meio de fortalecimento.

A fome não escolhe hora para se manifestar, ela está presente a todo instante na vida de quem precisa comer hoje, e não amanhã, apenas! Da mesma forma que só podemos lutar pela libertação animal estando vivos, pessoas em vulnerabilidade precisam sobreviver às injustiças para conseguirem ter acesso às mudanças.

Para combatermos as desigualdades e desinformações, é preciso entender antes o quê as fortalecem. O agronegócio não quer nos ver falando sobre soberania alimentar, porque aí vamos passar a entender que se alimentar é um baita ato político. E precisamos de atos políticos ocupando as mesas das cozinhas e as ruas das cidades.

Ong Colmeia Vegan, em São Paulo, e o coletivo Projeto Servindo Amor, em Goiânia, atuam na distribuição de marmitas veganas para pessoas vulneráveis socialmente. A alimentação equilibrada feita pelos voluntários é acompanhada por nutricionistas, e carrega uma mensagem para todo mundo: mobilização coletiva, já!

No campo e na cidade, o MST promove ações de inclusão do povo campesino às terras que de fato lhes pertence. A reforma agrária possibilita a redistribuição de espaços produtivos para a plantação de alimentos sem agrotóxicos, gerando saúde para a população e renda para a comunidade local. “Terra para quem nela planta”.

Enquanto assistimos ao massacre social promovido pelo governo Bolsonaro, a ONU alerta que o Brasil caminha a passos largos para voltar ao Mapa da Fome. Se já é ruim apenas olhar gráficos e reportagens, imagine o que é não se lembrar quando fez a última refeição – e quando será a próxima.

Imagem: Canva.

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