Veganismo e consciência política | Ecoativismo

Eu entendo que muita gente passa pela porta do veganismo por meio da alimentação, com uma moderada preocupação com os animais. Mas aí a pessoa pensa que já faz o suficiente e para de se questionar sobre as problemáticas de um veganismo de consumo, que o capital usa para lhe trazer benefícios exclusivamente, pouco se importando com vidas de animais humanos e não-humanos.

O capital não quer que veganos deixem a fronteira da dieta e passem a refletir sobre outras explorações que também deveriam ser pautas diárias para quem, mesmo que incialmente, quer o fim das desigualdades e do especismo. Se não é justo para uma vaca ter seu corpo explorado por toda a vida, por que seria, por exemplo, para uma mulher trabalhar na indústria leiteira, tendo direitos reduzidos, baixo rendimento e a saúde física e mental seriamente prejudicada.

Não é a falsa ideia de meritocracia ou acesso à educação que podem justificar escolhas. É a exploração contínua e manutenção intencional de uma engrenagem gananciosa de corporações, estadistas e sistemas que visam manter as desigualdades, a falta de debate sobre esses assuntos e suprimir organizações populares de soberania alimentar. O sistema que oprime tudo isso sabe bem quanto vale cada vida e como a autonomia individual e coletiva pode derrubar barreiras para a consciência de nossos reais poderes e deveres uns com os outros (isso inclui todos os presentes em um ecossistema).

Veganismo é luta política contra esse sistema. Se uma multinacional te oferecer comprar uma maionese ou sorvete estritamente vegetarianos, mas produzidos com exploração de animais em laboratórios e humanos no campo, com a roupagem de ser necessário para incentivar novos caminhos para o movimento: recuse imediatamente! Se eles estão ganhando dinheiro com isso, não estão preocupados com as formas de exploração que continuam sendo impostas sobre a Terra, humanos e animais.

Multinacionais querem manter lucros, não importa de que forma. Tais empresas estão relacionadas a exorbitantes casos de opressão de marcas menores, cartel, lobby com propina para aprovação de leis, poluição de nascentes, escassez de água para populações ribeirinhas e mais carentes, contaminação de solos por descarte da indústria pecuária, trabalho infantil e escravo, entre outros absurdos financiados pelo sistema de consumo. Consumo, apenas. Nada mais importa para elas. Não se iluda com a bandeira levantada em favor das causas sociais e ambientais. No final do mês, importa é se aquela linha de produtos veganos foi rentável o suficiente para os dirigentes.

Veganismo acontece na medida do possível e do praticável. Vivemos em um sistema que não pode ser mudado por completo e que é repleto de explorações em diferentes camadas, porque não é do interesse de quem possui a concentração de renda e poder para si querer incluir, seja pelo falso discurso da diversidade democrática ou meritocrática, movimentos organizados que pensem por si e pelas minorias. O efeito prático no consumo capitalista seria desastroso para as empresas e governos quando se virem diante de economias solidárias nas comunidades, agrofloresta e agricultura familiar no campo e autonomia alimentar de um povo livre e consciente sobre o que está no prato, desde antes da colheita.

A dieta pode ser sua porta de entrada, mas não é a única a ser atravessada quando se está aberto para a consciência de uma luta que é muito maior que o paladar.

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